Cerimónia de Dedicação da Sinagoga Ohel Jacob
Discurso do Rabino Jules Harlow na cerimónia de Chanukat Ha-Bayit da Sinagoga Ohel Jacob
17 Dezembro 2006 / 26 Kislev 5767
(tradução: Yosef Costa)
É, para todos nós, um privilégio especial estar aqui, hoje, e não apenas para os membros da Kehilat Beit Israel, pois estamos a celebrar tanto o passado como o futuro. Hoje, em Hanucá, estamos a celebrar o passado, lembrando-nos com gratidão da milagrosa rededicação do antigo Templo em Jerusalém, pelos Macabeus. Mas estamos também a celebrar o futuro, pois, através da dedicação deste santuário destinado à oração e ao estudo, a Kehilat Beit Israel está a dizer “sim” ao futuro da vida e da tradição judaicas em Lisboa, como mais uma etapa do milagroso retorno à tradição judaica, à tradição dos nossos antepassados, num país onde essa mesma cultura foi destruída e, durante vários séculos, permaneceu adormecida. A Kehilat Beit Israel é a primeira congregação conservadora masorti na história de Portugal. Encontra-se lado a lado com a honrosa sinagoga Shaarei Tikvah. Que, com dedicação, ambas continuem a servir a Deus e ao povo de Israel.
Os judeus têm dedicado santuários há milhares de anos, em muitos países e cidades de todo o mundo. Todavia, em todos os países e em todas as cidades há sempre uma exigência a cumprir, baseada na compreensão de um versículo da Torá, a revelação de Deus no monte Sinai.
No livro de Êxodo (Sh’mot, em hebraico), lemos que Deus deu um mandamento a Moisés: “E farão para mim um santuário — v’asu li mikdash — a habituarei no meio deles — v’shakhanti b’tokham.
“E farão para MIM um santuário, e habituarei no meio deles.” Logicamente, esta a última frase deveria dizer “e habitarei nele” Porém, lemos “e habituarei no meio deles.” Os rabinos da antiguidade, os quais tentaram constantemente aplicar as palavras da Torá à vida, entendiam que esta escolha de palavras foi intencional, no sentido de querer ensinar algo básico acerca do santuário. Ela ensina-nos que um santuário deverá ser lugar onde acontece algo especial e admirável no meio das pessoas que o frequentam e utilizam — “e habituarei no meio deles.”
A localização de um santuário é um factor secundário; poderá ser num tabernáculo no meio do deserto, no antigo Templo de Jerusalém, nos edifícios sumptuosos das sinagogas que enriqueceram a vida judaica na Europa, ou ainda neste modesto espaço, cujo estatuto de santuário é reforçado pela conduta impecável dos membros da Kehilat Beit Israel que dele fazem uso. A presença de Deus nota-se mais claramente não no aspecto físico do santuário, os seus móveis, a sua decoração, mas antes na qualidade das experiências e dos relacionamentos das pessoas que utilizam o santuário para se reunirem, rezarem e estudarem. A conduta adequada dos seus frequentadores é o garante de que a presença divina é real no meio deles, na sua comunidade.
Esta é uma mensagem especialmente adequada para este lugar, a nova localização da Kehilat Beit Israel, devido ao espírito de dedicação e empenho com que os seus membros se reúnem como uma comunidade especial, uma kehilah kedoshah (comunidade sagrada), para a realização de propósitos sagrados.
Neste novo local, os membros desta comunidade nunca descuraram a hospitalidade com que foram recebidos no seu primeiro santuário, o da Sinagoga Ohel Yaakov fundada por judeus oriundos da Polónia, dentre os quais vários refugiados do holocausto nazi. Os membros da Kehilat Beit Israel perpetuam, assim, o espírito da sinagoga Ohel Yaakov cada vez que se encontram para oração e estudo.
A santidade de um lugar depende da qualidade da vida daqueles que o utilizam. Esta mensagem traz-nos à memória outro versículo da Torá, nomeadamente do livro de Números, B’midbar em hebraico. Este conhecido versículo é recitado frequentemente nas sinagogas de todo o mundo, ao entrarmos ou ao princípio dos serviços religiosos. Porém, não se trata de palavras proferidas por algum israelita, mas por um profeta pagão chamado Bilaam, o qual era conhecido na antiguidade pelo poder invulgar das suas palavras. Um inimigo dos israelitas contratou a Bilaam para que amaldiçoasse o povo de Israel. Após enfrentar e superar um obstáculo que lhe surgiu no caminho, Bilaam aproximou-se do acampamento israelita no deserto. Subiu, então, a uma colina para ter uma melhor visão do acampamento.
Porém, enquanto estava no cimo da colina a olhar para as tendas israelitas, Bilaam foi incapaz de amaldiçoá-los. Qual terá sido a razão? Bilaam reparou na maneira como o povo vivia e como as pessoas se tratavam mutuamente com modéstia e respeito. Ao ver isso, não pôde evitar abençoá-las. Parte dessa bênção está contida no versículo da Torá recitado nos santuários judaicos até aos nossos dias: mah tovu ohalekha Yaakov, quão belas são as tuas tendass, ó Jacob; os teus santuários, Israel, mishk’notekha Yisrael.
Este versículo adequa-se completamente a este dia, a este lugar e a este grupo de pessoas, desde a sua mudança da antiga tenda de Jacob, a Ohel Yaakov, para este novo santuário da Kehilat Beit Israel, mish-k’notekha Yisrael.
Estamos aqui reunidos, ao terceiro dia de Hanucá, festa que comemora muitas coisas, entre as quais um triunfo, uma vitória sobre obstáculos que se afiguravam praticamente impossíveis de serem ultrapassados. A história da Kehilat Beit Israel é um espantoso exemplo de vitória sobre os obstáculos. Vocês não são os macabeus, mas têm mantido o espírito de coragem e bravura dos macabeus. Hanucá comemora o triunfo da tradição sobre a assimilação e a ameaça da extinção.
Os macabeus eram um grupo pequeno mas comprometido. Contra tudo e contra todos, reacenderam as luzes da sua fé no seu próprio santuário. A Kehilat Beit Israel está a reacender a luz que os trouxe até aqui. Ela está a reafirmar a sua fé de que, através da sua conduta de vida, o versículo de Êxodo se cumprirá: E farão para MIM um santuário, e eu habitarei no meio deles.
Que cada um que faz parte desta comunidade Beit Israel possa viver a sua vida de forma tal que todos os que vejam ou ouçam acerca deste santuário digam, utilizando as palavras do nosso patriarca Jacob: Certamente, a presença de Deus está neste lugar.
Que todos os que entrem pelas portas da Kehilat Beit Israel sejam acolhidos com as bênçãos da nossa sagrada tradição.
Entre as bênçãos deste dia, está aquela que a minha esposa Navah e eu sentimos em termos participado, juntamente com os membros da comunidade Beit Israel, desta notável jornada marcada pela persistência e dedicação que lhes permitiram chegar até aqui. Nós aprendemos a amá-los; e erguemo-nos hoje, como parte desta família, para recitarmos uma berakhah (bênção) em gratidão a Deus por nos ter permitido chegar a este dia juntos.
Barukh atah Ad’nai, Elohenu Melech haolam, sheh-he-che-yanu, v’kiyemanu v’higianu lazman hazeh.
Bênção no fim do Serviço
Mi sheh-beirakh……
Aquele que abençoou os nossos antepassados, Abraão, Isaac e Jacob, Sarah, Rebeca, Raquel e Leah, abençoará esta congregação, junto a todas as santas congregações, elas e as suas famílias e tudo o que lhes pertence, e todos aqueles que organizam sinagogas para a oração, que vêm nelas rezar, e que contribuem financeiramente para o aquecimento e a luz, para o vinho para o kiddush e havdalah, pão para o viajante e caridade para os pobres, e todos os que se dedicam a satisfazer as necessidades de toda esta comunidade e do Estado de Israel. Que o Sagrado os recompense, os cure, e perdoe os seus pecados. Que os abençoe fazendo prosperar toda a obra das suas mãos, bem como de toda a Casa de Israel. E todos digam, Ámen.


